terça-feira, 9 de junho de 2009

O Mistério de Languedoc

Centenas de livros já foram escritos sobre Rennes-le-Château, uma pequena vila francesa de 112 habitantes na região do Languedoc, logo acima dos Pireneus.


Diz a lenda que, durante uma reforma na igreja local, um padre chamado Bérenger Saunière, pároco entre 1885 e 1917, teria encontrado importantes pergaminhos. Depois de mostrar os documentos a seus superiores em Paris, voltou transformado. Financeiramente transformado, para ser mais exata.

Saunière liderou uma reforma faraônica no templo do minúsculo povoado....
....Com direito à estátua de um demônio segurando uma bacia de água benta e a inscrição: “Este lugar é terrível” (Terribilis est locus iste). Construiu um pequeno castelo para si e a Torre de Magdala, em homenagem a Maria Madalena. Muita gente acredita que seu enriquecimento instantâneo seria um “convite ao silêncio” oferecido pelo Vaticano. Os pergaminhos nunca vieram a público. Como resultado do aumento do número de visitantes, o povo de Rennes-le-Château resolveu exumar o corpo de Saunière.

Para ver o mausoléu construído em sua homenagem, paga-se € 3. Por € 5, você leva para casa uma garrafa do vinho tinto Cuvée de Rennes-le-Château, com a foto de Saunière no rótulo.
De graça, leva muita história e mistério. Aconchegante à primeira vista, a aldeia foi palco de um mistério que seduziu milhares de pessoas desde que aconteceu, no final do século XIX, tanto que as conseqüências se fazem ver logo na entrada da aldeia, por meio de uma placa que diz: “Lês Fouilles Sont Interdites Sur Le Territoire de la Commune de Rennes-le-Chateau” (As Escavações São Proibidas Dentro do Território da Comunidade de Rennes-le-Chateau).

Mas o que poderia haver de tão interessante numa aldeia distante a ponto de chamar tanto a atenção de pessoa que desejariam escavar seu solo?
A resposta está na supostamente estranha igreja da aldeia, consagrada a Maria Madalena, e no padre que a reformou por volta de 1888. Tudo por causa de alguns supostos pergaminhos encontrados num antigo pilar visigodo durante a reforma da igreja. Mas vamos por partes. Primeiro é necessário conhecer um pouco da história dele.
O polêmico padre nasceu em Montazels em 11 de abril de 1852.
Bérenger freqüentou a escola do vilarejo de Saint Louis de Limoux, a poucos quilômetros de Rennes-le-Chateau, depois indo para o seminário em Carcassone, onde recebeu sua ordenação em 1879.
Sempre freqüentador da região, o padre teve sua primeira missão como vigário em outra cidade da vizinhança, chamada Alet-les-Bains. Três anos depois foi promovido a padre responsável de outra localidade, Le Clat, que seria sua última mudança.

O ano era de 1885. Sauniére foi indicado em primeiro de junho para Rennes-le-Chateau, na época com uma população de apenas 298 pessoas. E a polêmica já começa aí.
Seus sermões geravam duras críticas ao regime, o que provocou uma advertência por parte de seu bispo, que logo o suspendeu temporariamente e o proibiu de rezar missas durante pelo menos um ano. Isso não o impediu de conhecer sua nova paróquia. Uma vez lá Sauniére pode constatar que esta era mesmo muito pobre. As casas não possuíam suprimento confiável de água e a aldeia só era acessível via lombo de mula. Seus ganhos eram baixos e ele logo teve que se dedicar a caçar e pescar para poder obter comida.

A primeira igreja era uma das edificações mais terríveis, com infiltrações, ameaças de queda do teto e muito mais. Sauniére tentou levantar fundos para a reforma, mas estes se mostraram muito limitados. Porém ele contava com o apoio de dois colegas que também eram clérigos: o abade Henri Boudet, da vizinha Rennes-le-Bain, e Antoine Gélis, de Coustassa. Os três eram constantemente vistos fazendo piqueniques na região e conversando por horas a fio, o que levou a especulações sobre os assuntos de tais conversas. Tanto Boudet quanto Gélis seriam protagonistas de mistérios em suas próprias paróquias, embora de repercussão não tão grande quanto a de Sauniére.

A igreja de Santa Maria Madalena era da época da dinastia carolíngia, que substituiu os merovíngios, que datava de cerca de 1059, e estava sob fundações da época dos visigodos, datada de algum ponto ao redor do século VI. O abade Boudet incitou muito Sauniére a conseguir reformar o local, coisa que se deu apenas no ano de 1891, quando uma reforma modesta teria começado com a ajuda de uma pequena soma dos fundos municipais aliada a alguns parcos recursos próprios.
Reza a tradição que, durante os trabalhos, ele e alguns auxiliares teriam retirado o altar-mor, uma pedra que repousava sobre duas colunas visigóticas.
Uma das colunas revelou-se oca. Dentro dela havia quatro pergaminhos guardados em tubos de madeira selados. Dois desses pergaminhos continham genealogias, uma datada de 1244 e a outra, de 1644. Os dois documentos haviam sido compostos, aparentemente, nos idos de 1780, por Antoine Bigou, um dos predecessores de Sauniére em Rennes-le-Chateau”.

Esses pergaminhos (cujos originais ninguém teve um vislumbre até hoje) continham textos em latim, retirados do Novo Testamento. Num deles as palavras eram anotadas sem espaço entre elas e haviam várias letras supérfluas inseridas no texto. No segundo as palavras eram truncadas de maneira irregular, algumas no meio das palavras. Assim estes pergaminhos supstamente conteriam códigos e cifras que precisariam de uma chave para ser decifrados.

Sauniére, segundo testemunhos, teria decidido dispensar os trabalhadores e levar estes pergaminhos até seu superior, o bispo de Carcassone. De lá o superior teria, seguindo o trio, enviado Sauniére a Paris, com despesas pagas, para que este levasse os pergaminhos para o diretor-geral do Seminário de Saint Sulpice, o abade Biel, e o sobrinho deste, Emile Hoffet, que seria um especialista em lingüística, criptografia e paleografia. Essa viagem é um ponto de controvérsias.

Documentários para os canais de tv cabo revelam que, entre os pertences de Sauniére, havia um mapa de Paris com alguns lugares marcados com uma cruz, inclusive Saint Sulpice. Porém, para a maioria quase esmagadora dos autores de trabalhos sobre Rennes-le-Chateau, essa viagem nunca teria acontecido. Seja como for, a história (verdadeira ou não) adiciona um detalhe sobre esta viagem: os pergaminhos teriam um destino ignorado desde que chegaram em Paris. De volta à sua aldeia, Sauniére trazia uma estranha lembrança de sua viagem, reproduções de quadros adquiridos no Museu do Louvre: um retrato do papa Celestino V, uma tela não identificada de David Teniers e uma das mais famosas telas do pintor francês Nicolas Poussin, Les Bergers d´Arcadie (Os Pastores de Arcádia).

O caso foi que, depois que voltou, Sauniére desatou a construir em massa. Teria terminado a reforma da Igreja, sempre de olho nos detalhes, inclusive encomendado alguns itens considerados curiosos, como uma estátua de um demônio para a pia de batismo, na imagem abaixo. Uma pintura de Madalena em que muitos vêem como grávida, estações da Via Sacra com detalhes inconsistentes (como a estação VIII, que mostra uma criança envolta numa capa escocesa e a XIV, que mostra o corpo de Jesus sendo posto no túmulo durante a noite), bem como duas estátuas, uma de Maria e outra de José, ambas segurando um menino (que alguns autores dizem ser uma referência clara a uma crença gnóstica de que Jesus teria tido um irmão gêmeo).
A entrada da igreja com a inscrição em latim Terribilis Est Locus Iste, retirada de uma passagem do Velho testamento, o famoso sonho de Jacó, e que se encontra no inicio desta postagem. De repente o dinheiro começou a aparecer para Sauniére e, aparentemente, muito mais começou a ser feito pela comunidade. Além da igreja, o padre teria trabalhado na reforma do sistema de água, da estrada da aldeia, na construção de um jardim, um zoológico, um calvário, um ossuário para o cemitério da igreja, e duas construções impressionantes, uma torre gótica batizada de Torre Magdala e uma mansão chamada de Villa Bethânia.

Também passou a receber convidados ilustres, como o ministro francês da cultura e a cantora lírica Emma Calvé, ligada a círculos esotéricos na época. Outro visitante ilustre teria sido o arquiduque Johann von Habsburgo, primo de Franz Josef, imperador da Áustria. O trio de escritores-biógrafos de Saunière ressalta que há extratos bancários da época que mostram que este e o arquiduque abriram contas bancárias no mesmo dia e que o nobre havia transferido uma grande soma de dinheiro para a conta do padre.

Mais estranho era o fato de um padre de uma pequena aldeia ter despesas que giravam em torno de 190 mil francos, o equivalente hoje a alguns milhões de libras e dólares que acabaram sendo usadas no que esta planta revela. Nesse meio tempo o estilo de vida de um faraó que Sauniére levava chegou aos ouvidos de seus superiores, porém as extravagâncias como a compra de tapetes caros, comidas exóticas, tecidos e mesmo vestidos para sua companheira e governanta, Marie Denarnaud, não eram levados em conta até a morte do bispo de Carcassone e um novo bispo entrar em cena.
Este, intrigado com as estranhas ocorrências, chamou a atenção de Sauniére, que teria respondido com uma desobediência inesperada e insolente, se recusando a explicar de onde vinham seus rendimentos. O confronto entre os clérigos tomou outras proporções quando o novo bispo acusou Sauniére de tráfico de missas. Na época era comum um padre receber pelo correio dinheiro para rezar missas à distância.
E registros mostram que realmente o polêmico padre gastou uma verdadeira fortuna (muito mais do que ganhava) com a troca de cartas com representantes de vários pontos do continente europeu.
O processo se arrastou, mas Sauniére conseguiu uma vitória pelo fato da acusação não ser tão substanciosa, e logo estava de volta aos seus afazeres.
Claro que as atividades e afazeres do padre de sua aldeia deixava o povo inquieto.
Realmente existem cartas históricas registradas onde havia sérias queixas contra Sauniére que, na época, mexia nos túmulos do cemitério e mudava os mesmos de lugar.

Entre estes túmulos estava um em particular, pertencente a Marie de Négre D´Ables, uma condessa do século VIII que viveu no castelo de sua família próximo a Rennes-le-Chateau.
A inscrição na lápide de seu túmulo sofreu tentativas de vandalismo por parte de Sauniére, que demonstrava não querer que outros tivessem acesso ao código ali contido que, juntamente com os manuscritos, daria supostamente a localização de um tesouro que, para muitos, poderia ser o tesouro pilhado pelos visigodos em Roma, o saque do Templo de Jerusalém pelo imperador Tito, o que de pouco teria adiantado, já que há registros de uma Sociedade de Estudos Científicos de Aude, que teria um desenho de como era a pedra antes de ser alterada.

Mais sobre o misterioso túmulo: seria formado originalmente por duas lápides, uma na horizontal e outra na vertical. A horizontal já teria desaparecido na época de Sauniére e haveria um registro num livro de um autor local, chamado Pedras Gravadas do Languedoc, onde uma das cópias pode ser encontrada na Biblioteca Nacional de Paris. Essa segunda pedra traria a inscrição Et In Arcadia Ego, a mesma que pode ser vista no quadro de Nicolas Poussin. E as letras OS num semi-círculo.

Resta saber como Sauniére, um padre do interior, poderia saber sobre tudo isso? Para os que adoram uma teoria da conspiração, foi dito desde que ele seria um enviado do Priorado de Sião para a região justamente a fim de descobrir onde estavam esses pergaminhos (o que explicaria sua arrogância ao desafiar o novo bispo de Carcassone) até que o padre teria ganho a confiança do círculo esotérico de Paris, incluindo o Priorado de Sião, que o teria abastecido de muito dinheiro para que terminasse seu trabalho em Rennes-le-Chateau. O fato é que a tal coluna visigótica onde os manuscritos teriam sido encontrados existe mesmo e foi instalada como pedestal para uma nova imagem de Nossa Senhora junto à porta da igreja. Lá se pode ver a inscrição 1891.

O comportamento do padre começou a ser classificado de estranho. Testemunhas dizem que ele saía em longas caminhadas pelos campos, carregando uma mala pesada. Colhia pedras aparentemente sem valor pelo caminho, desaparecia durante vários dias, recebia uma média de 150 cartas por dia.
Não demorou muito e seus superiores conseguiram que Sauniére ficasse sem ministrar seus ofícios e ficasse excluído da igreja da aldeia. O padre não ficou quieto e montou um altar na Villa Bethânia, onde rezou missas até o fim de sua vida. Quando morreu, em 17 de janeiro de 1917 (a mesma data da morte da condessa) teria se confessado a um padre de uma paróquia vizinha. As testemunhas dizem que o padre saiu do quarto de Sauniére em choque e “nunca mais sorriu”. Bérenger Sauniére morreu sem ter os últimos sacramentos administrados.

Sauniére foi enterrado no mesmo cemitério onde havia feito suas reformas. No ano de 2005 seu corpo teria sido, segundo alguns sites europeus sobre Rennes-le-Chateau, exumado e, aos moldes do de Lênin na Rússia, colocado para exposição pública, o que sugere que talvez seu corpo tenha sido mumificado. Mas se o foi, por quem foi e qual a razão disto?

Quando o testamento do padre foi aberto, uma surpresa: Sauniére estava na miséria, não havia deixado nada para sua própria família e todos os seus bens haviam sido transferidos para Marie Denarnaud. Esta viveu na Villa Bethânia por mais 36 anos até que, com a idade avançada, vendeu a propriedade, em 1946, para Noel Corbu, que transformou a casa num hotel. Como parte de um trato, ela moraria na casa, mesmo vendida, até sua morte, em 1953. A lenda do tesouro de Sauniére marcou também o resto da vida de Marie, que sempre dizia a todos que “coitados, vocês não sabem no que estão pisando”.

Para muitos ela sabia os segredos de Sauniére, inclusive de onde vinham seus ganhos. Marie prometia a Noel que, um dia, contaria um segredo que o transformaria num homem influente. Porém quis o destino que esta promessa nunca fosse cumprida: Marie sofreu um derrame que a emudeceu.
A partir de então muita gente tentou localizar esse tesouro de qualquer maneira, o que gerou o aviso colocado pela prefeitura da aldeia. Ninguém jamais notou se, entre as supostas visitas de Sauniére, estavam mesmo pessoas que poderiam pertencer ao Priorado de Sião. Sabe-se, entretanto, que Pierre Plantard teria adquirido algumas terras ao pé do morro onde se ergue Rennes-le-Chateau.

E de onde vinha o dinheiro do padre? Do tesouro visigodo? De verbas levantadas pela comunidade esotérica? Do Priorado de Sião? Do Vaticano? As lendas falam apenas da suposta localização do tesouro, nunca de uma linhagem oriunda de Jesus e Maria Madalena, para muitos um detalhe do mito incluído muitos anos depois por Pierre Plantard e seus asseclas.

extraido de A Escriba

2 comentários:

Carla disse...

Acabei de ler o Mistério do anel e este artigo foi muito esclarecedor para meus recentes conhecimentos e interesses!
Parabéns!

Tania disse...

estou pesquizando sobre o legado de maria Madalena.Os livros de Katheen McGowan me estimula, ir mais fundo na questão. Este artigo contribuiu bastante. mas temos muito que caminhar!